viernes, 6 de febrero de 2009

A porta de Mazagão


“ Nunca vira uma porta feita para proteger do mar uma cidade. A porta já não estava inteira, a ferrugem comera pedaços do ferro; mas continuava a impedir que alguém que quisesse entrar na cidade, vindo do lado do mar, a arrombasse, caso a porta estivesse fechada. Perguntava por que é que ainda havia quem quisesse fechar aquela porta? E via os rapazes que mergulhavam do alto das muralhas, e nadavam até ao degrau onde a porta continuava aberta, entrarem pela escada da cidade, e subirem até ao alto da muralha para se atirarem de novo ao mar. «Serão eles que mantêm a porta aberta?», perguntava; e a resposta lógica era a de que talvez fosse por sua causa que a porta não se voltava a fechar, e até talvez as dobradiças tivessem ficado presas, por causa desses rapazes que não paravam de mergulhar e voltar a entrar pela porta do mar, por onde só eles é que ainda entravam.
E resolveu espreitar por essa porta…”

Júdice,Nuno, A porta de Mazagão , in “MangaAncha nº2”

lunes, 2 de febrero de 2009

Os junquilhos de Sara


“ …
Os junquilhos
Foi quando em Rabat apareceram os junquilhos.
Em Lisboa, não sei por que razão, desapareceram dos cestos das floristas há já alguns anos, essas flores brancas que sempre comprava, e que entre Dezembro e Janeiro invadiam a casa com um odor tão forte que toda a gente protestava. Talvez por causa do cheiro peculiar tivessem deixado de aparecer. Só sei que as procurei ano após ano e, finalmente, desisti.
Em Marrocos descobri-os primeiro no campo, um aqui, outro ali, e senti uma alegria incrédula, uma espécie de milagre: os junquilhos! desaparecidos de Portugal, aparecidos em Marrocos. Apanhei alguns, eram as mesmas flores, iguais em toda a parte, o cheiro inconfundível; o irmão de Hind, vendo que eu gostava, apanhou uma florinha e ofereceu-ma.
Em Rabat, um velho vendia-os no meio de outras. Os ramos dos junquilhos eram grandes, fartos como nunca tinha visto. Perguntei quanto custava, e ele, vendo o meu interesse, cobrou um preço alto, sem um sorriso. Apressei o passo para ir ter com os meus companheiros. Dividi o ramo: metade para mim, metade para Hind. A metade que guardei ficou a empestar o quarto de hotel para grande felicidade minha. Com o passar dos dias, o cheiro ficou tão intenso que eu tive medo de que as empregadas da limpeza o deitassem fora ou que algum sistema anti-cheiro começasse a disparar. J. não deu por nada.



Os junquilhos
Milagrosamente, em Portugal recuperei os junquilhos. Depois de tanto os ter procurado em Lisboa sem os encontrar,; depois de os ter reencontrado em Marrocos, no campo e na cidade e os ter novamente deixado, vi-os a florescer aqui no campo. J. já mo tinha dito em Marrocos, “lá também há,” mas eu não acreditei, tão improvável me pareceu. Desapareciam-me da vista anos a fio e apareciam agora, por obra e graça do acaso, em todo o lado? É só apanhá-los. Apanhá-los às mãos cheias. Tantos, que se eu quisesse, podia agora transformar-me na florista que volta a introduzi-los no mercado. Mas enquanto esse futuro romanesco não chega, limito-me a colhê-los e a depositá-los em jarras. Voltei a ouvir: “que cheiro esquisito é este?” Já tinha saudades da pergunta, faz-me sentir bem…”

Monteiro,Sara, Marrocos a preto e branco, in Manga Ancha nº2

lunes, 26 de enero de 2009

Traducir Mangaancha: una experiencia muy gratificante


El año pasado, cuando la profesora Beatriz nos propuso la traducción de algunos textos de “Manga Ancha” (una revista que nadie conocía en la clase), esta propuesta se me presentó como un reto individual y colectivo que me suscitaba sentimientos múltiples y distintos. Por un lado, sentía curiosidad por esta revista nueva y el deseo intelectual y profesional de participar en un proyecto cuyos objetivos me parecían de gran valía, y al mismo tiempo, de hacer un trabajo de traducción no puramente académico; por otro lado, sentía cierto recelo: era consciente de la responsabilidad individual y colectiva que iban a exigirnos estas traducciones ya que se dirigían a una revista de literatura que está haciendo su entrada en el mundo de las letras.
Sin embargo, más fuerte que el recelo fue la voluntad de todos. La experiencia se volvió un espacio de empeño y de discusión colectivos que no sólo hicieron de este trabajo un tiempo de reflexión lingüística, cultural y traductológica, sino una oportunidad de heteroconocimiento y de complicidades.
Además, si el hecho de traducir textos de autores extranjeros que hablaban con un matiz tan afectivo de un Portugal reciente, no vivido de la misma forma por todos los alumnos, ha dificultado a veces la traducción, al mismo tiempo, ha permitido una corta mirada histórico-geográfica muy interesante al buscarse el sentido profundo del texto y el equivalente lingüístico más adecuado.
El resultado fue para mí (y para todos, creo) muy gratificante a varios niveles:
Al nivel pedagógico-didáctico, estas clases han favorecido la construcción de un saber compartido consciente de la humildad, de la duda inteligente y de la persistencia que uno tiene que tener cuando se sienta delante de un texto original para traducirlo. Además nos han permitido un acercamiento al entorno laboral en un dominio – el literario – que por motivos curriculares está más alejado de nuestros estudios.
Al nivel cultural, la traducción primero y luego la lectura de la revista nos han permitido un enfoque más amplio de las literaturas periféricas y han creado en nosotros el deseo de seguir acompañando la vida de Mangaancha. Creo que algunos de nosotros nos convertiremos en lectores asiduos de las próximas ediciones. (Y ¿por qué no traductores?).
Finalmente, a nivel personal, nuestra participación en este proyecto ha favorecido no sólo el desarrollo de nuestra autoestima individual y colectiva, sino ampliado nuestra consciencia de pertenencia (nuestro sentimiento identitario, usando las palabras de Driss Bouissef).
En resumen, los deseos de la Presentación de este nº 2 de Mangaancha se han cumplido en nosotros, ya que nuestra colaboración nos ha permitido " evocar al otro y nos ha ayudado a todos a construir nuestro imaginario”.
¡Que Mangaancha tenga una vida muy larga!

Maria José Sarabando Neves Cartaxo

jueves, 22 de enero de 2009

Llueve a ratos. En la Biblioteca Nacional andan de recuento. Sustituyo aquel número 15 de la Sala de Publicaciones Periódicas por una mesa de rincón en el Starbucks de Alonso Martínez. Nunca correría por un café (líquido) como ese, sin embargo el café (espacio) lo merece. Leo y releo, al abrigo de gritos y de tasadores vestidos de camareros. Dicen que por la crisis los están cerrando, pues que no los cierren todos, que dejen por lo menos algunos como éste. Luego, ya de noche, en la Casa de Galicia, oí a Ada Salas, Esto no es el silencio (elogió la tierra para satisfacción de este oído satisfecho). También leyó Ramón Caride. La presentación, como es habitual, certera y lírica, de Vicente Araguas. En el mismo sitio, una exposición de relieves en madera de Chazo y otra de pintura de María José Leiría (y la evocación, inevitable, del Mario Eloy de Anjos y O bailarico do bairro)

antónio

jueves, 1 de enero de 2009

Rua da Fonte

Cada quien homenajea como quiere. Hay tantas maneras de sentir como hechuras de homenajes. En Manga ancha quisimos celebrar a un poeta despidiendo el año en la Figueira. Figueira da Foz, educación sentimental, Basilio Sánchez. Allí estaba la Rua da Fonte, sin niño, sin Citroën, sin número 12. Cosas de solsticios, hemisferios y translaciones. La voz de Teresa y un poema de Basilio por el aire.

miércoles, 24 de diciembre de 2008

Natal 2008

Escolhe as fitas. Há azuis, encarnadas, douradas…

Chama-se Samuel e nasceu num campo de refugiados algures numa montanha onde não se festeja o Natal, onde o Natal nunca chegou, nem o Natal nem outras coisas que o Samuel nem calculava.

Porque não nascemos todos iguais, o Samuel não se conformou e descobria sempre mais qualquer coisa melhor que os outros para comer, para o obrigar a fazer exercícios mentais. Gostava de ouvir as pessoas mais velhas, de observar a curandeira, de ver nascer o Sol e de esperar pelo espectáculo de o ver a pôr-se. Foi por isso que o Samuel se salvou. Todos repararam no mais desgraçado do campo de refugiados mas todos desviaram logo o olhar. Mandaram que alguém do campo tratasse dele, era muito doloroso. Mas o Samuel não. Estava lá como os outros mas tinha bom aspecto. Não se sabe porquê mas ele tinha tratado da mente, que o espelho dos olhos é o mais fiel que existe. Até a cara tinha lavada, lavava-a todos os dias para a eventualidade de... Não dizia nada e concentrava toda a atenção no que se passava à sua volta.

O João ia passar o Natal, que estava próximo, a casa e sentiu-se cativado. Parecia que o miúdo estava ali à sua espera e que ele só tinha ido ali por causa dele. Olhou em volta e lembrou-se – não posso modificar o mundo, mas posso melhorar-me e melhorar pelo menos alguém.
Se o Samuel fizesse parte daquele cenário, se estivesse como os outros, ele nunca se lembraria de o levar. Mas o Samuel não. Era o único que não era dali. Como ele. Tinham mais dívidas saldadas do que todos ali que desde que tivessem paz e comida não se adaptariam noutro lugar.

Quando no primeiro dia de Missão o João recolheu ao quartel, o Samuel deu-lhe a mão, foi com ele assim até ao jipe. Depois ficou a acenar-lhe até ele desaparecer e a dizer baixinho até amanhã, até amanhã, até amanhã como costumava dizer ao Sol, quando ele desaparecia no firmamento.

Nesse dia o João começou a tratar das coisas para levar com ele o Samuel.
- Já percebo porque vim aqui – Disse ele ao colega com quem bebia uns copos à noite e sabia da sua pouca vocação. Mas não acrescentou mais nada. O que ele teve que tratar não interessa, ele já se esqueceu até. O Samuel veio com ele. Encontrei-o há dias e é um rapaz normal, simpático, afável, equilibrado.

Perguntei-lhe quando fazia anos e ele disse-me que fazia anos no Natal. Que foi a primeira palavra que aprendeu a dizer em português. Que todos os anos no Natal se ocupa pelo menos de uma pessoa para a fazer feliz. Que o Natal para ele tem um significado especial, porque foi quando ele nasceu e está contente porque se sente bem com ele, porque lhe foi dada a oportunidade de também dar prazer a outras pessoas, que os estudos lhe correm bem, que ele mesmo se ocupa de embrulhar os presentes no Natal e tratar de fazer o presépio e a árvore de Natal. Que convoca toda a gente.
Disse-me que te convocasse.
- Que bom teres vindo, põe no cimo da árvore este sino dourado com a fita vermelha.


26 De Novembro de 2008

Nota: A Luz e o João, a Madalena e o António do conto do ano passado estão bons e desejam-vos também Boas Festas.
Paula

martes, 16 de diciembre de 2008

MA Aveiro-Lisboa


La semana pasada fue presentada, por vez primera, la revista Manga ancha en Portugal; concretamente en la Universidad de Aveiro y en la Casa Pessoa de Lisboa. En ambos sitios gozamos con la presencia de algunos escritores y colaboradores de la revista Inês Pedrosa. Sara Monteiro, Adalberto Alves), con el calor de los amigos que acudieron a arroparnos, y con la gratitud de los curiosos que se acercaron para conocer de cerca el proyecto. Para todos ellos, mi abrazo más inmenso desde aquí.

Quizá lo más curioso fue que por primera vez también se conocieron algunos miembros del Colectivo Manga ancha, pues hasta ese momento su conecencia era sólo virtual. Y cuando uno lleva mucho tiempo trabajando a través de la red con gente que no conoce le gusta ponerle cara, ¿o no, Emi?

Olvidé, en la presentación en la Casa Pessoa de Lisboa, mencionar la labor desinteresada de amigos en las traducciones portugués-español; un poco tarde, Jane, subsano mi error. Sabes que lo agrademos enormemente.

La segunda, y hablando de traducción en la Casa Pessoa, ¿cómo no mencioné a Ángel Campos Pámpano especialmente en estos momentos que acaba de dejarnos definitivamente? Desde aquí igualmente, nuestro agradecimiento en la apertura de este camino ibérico que también nosotros queremos “ensanchar”.

Por último ¿cómo no dar un abrazo a los miembros de Manga ancha que no pudieron venir? (Antonio en Madrid, Hassan en Casablanca, Driss en Tánger y Toñi en Florianópolis). Y desde aquí también quisiera describirles las miradas cómplices de los amigos (Jane, Alonso, João, Elena…), el silencio de Emi, camuflada entre el público y tras la cámara; la timidez de Bea que se arrancó con unas líneas de Carme Riera; el optimismo de Said, rebosante como siempre, y la inteligencia emocional siempre entrañable de Mena.



Teresa